Os dois amores de Vitório

Play it again sam, casablanca,

*Autor convidado – Khalil

 

Saiu do alfaiate com um pacote debaixo do braço e ao entrar no carro colocou-o no banco de trás, ao lado das flores que tinha comprado minutos antes. Eram rosas vermelhas que tinham a companhia de um cartão que dizia: “Desisto. O nome deste ritual é saudade”, assinado Rick Blaine.

Antes de dar a partida no veículo, Vitório tirou uma fita K7 do bolso, colocando-a no aparelho. Com um misto de melancolia e mágoa, ordenou: “Se ela agüentou, eu também agüento. Toque Sam”. E Dooley Wilson, o Sam, de Casablanca, estava naquele momento com sua voz cantando o eterno As Time Goes By, canção que por centenas de vezes ouvira com Luiza, a quem se destinavam as flores. Só que agora ele estava sozinho, invadido de saudade.

Ligou a ignição e foi enfrentar a realidade. Lembranças do namoro do tempo da faculdade de Filosofia, quando conheceu Luiza. Um ano depois, alugaram um pequeno apartamento e foram morar juntos. Ela trabalhava na parte da tarde  em uma livraria e estudava junto com ele pela manhã. Ele locou uma sala onde vendia aquários. Nos finais de semana não saiam de casa e pelo menos uma vez por mês assistiam Casablanca. Vitório nunca poderia esperar que ela iria deixá-lo num dia chuvoso, da mesma forma que Ingrid Bergamn havia abandonado Humphrey Bogart, em uma estação de trem em Paris. Porém, Ingrid reencontrou seu amor dois anos depois em Casablanca. E ele, Vitório?

No primeiro sinal fechado que encontrou recordou que Luiza contabilizava bem humorada os verdes e os vermelhos que o trânsito impunha em seus passeios. A esperança que ela tinha em morar um dia em um condomínio fechado, não por mania de grandeza, “simplesmente por segurança”, costumava dizer, sempre que comentavam entre eles que o apartamento era muito pequeno. Um quarto, uma pequena sala, um banheiro e uma mini-cozinha, realmente constituíam um espaço físico muito acanhado para os livros, fitas e plantas do casal.

Só percebeu o sinal verde no sinaleiro quando motorista de trás buzinou apressado. Enquanto isso, As Time Goes By, continuava tocando, pois todo aquele lado da fita só tinha essa canção.

“De certa forma Luiza realizou seu sonho”, pensou, Vitório, agora um pouco mais nervoso por já estar mais próximo de seu destino. “Dois anos de ausência e eu não consigo esquecê-la. Vamos rumo ao condomínio fechado, a morada de Luiza”, comentou consigo mesmo, e num gesto mecânico acelerou o carro, como quem pretendia chegar mais rápido possível.

Estacionou o carro e dirigiu-se até o guarda que se protegia da garoa na guarita. Perguntou onde ficava a rua Santa Terezinha. “O senhor anda reto e depois de três quadras dobra a direita”, informou apontando com o dedo. Vitório segurava as flores com uma mão, enquanto na outra tinha o pacote que havia apanhado no alfaiate. Pediu ao guarda que segurasse as rosas, abriu o pacote e dele retirou seu conteúdo: uma capa de gabardine e um chapéu. Vestiu-os e foi rumo à Luiza. Andou as quadras necessárias, dobrou à direita e pouco depois avistou Luiza em um retrato preto e branco, na cabeceira do túmulo. Colocou delicadamente as rosas junto da foto, apertou o cinto da capa, puxou o chapéu próximo à testa, acendeu um cigarro no canto da boca e falou baixinho: “Agora é minha vez, Sam”. Afastou-se de Luiza cantarolando em voz quase inaudível: As Times Goes By enquanto pensava falar com a amada. “Há dois anos começou uma grande saudade”.

Até a guarita a canção era intercalada com os soluços de Vitório. Quando entrou no carro a garoa estava mais forte, porém seu rosto estava mais molhado que o chapéu. E não era da chuva, era a ausência de Luzia materializada em lágrimas. Lembrou, então, tristemente que de seus amores, apenas um restava e, em forma de filme. Mas já era alguma coisa, pensou rumando para o apartamento cheio de livros, fitas, plantas e principalmente de saudade.

Este conto foi escrito em maio de 2000

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Sobre Gibran

Gibran, jornalista e coxa-branca. Filho de pais maravilhosos, marido de uma esposa sensacional, pai de quatro gatos (Jéssica, Jim, Lara e Arafat) e amigo de grandes amigos. Não vive sem música, leitura, futebol, internet e tecnologia. Metafísico e prático.

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